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Maceió, 2025 — O projeto Catamais Alagoas encerrou seu ciclo com números expressivos, mas também com um conjunto de aprendizados que podem orientar futuras políticas públicas voltadas à população catadora. O relatório final da parceria entre a Cooperativa Mãos Verdes e a Secretaria Estadual do Trabalho, Emprego e Qualificação (SETEQ) dedica seções inteiras à análise das dificuldades e conclusões do programa — e revela lições que vão além do escopo original.
Confiança antes do cadastro
A primeira lição é metodológica. O relatório é explícito ao afirmar que a Cooperativa Mãos Verdes construiu sua atuação sobre “relações de confiança”. Entre catadores e catadoras, o histórico é de abandono, preconceito e relações institucionais mal resolvidas. Por isso, informações pessoais só são compartilhadas quando há segurança. A conclusão é direta: não se constrói política pública para catadores sem tempo, escuta e presença contínua. Abordagens apressadas ou meramente cadastrais tendem ao fracasso.
Parar de trabalhar tem custo
O relatório destaca que cada dia parado representa perda de renda para o catador. Participar de reuniões ou formações, portanto, tem custo real. A experiência mostrou que projetos com essa população precisam incorporar mecanismos de compensação econômica — bolsas, cestas, ajuda de custo — para garantir assiduidade. Não se trata de assistencialismo, mas de reconhecer o valor do tempo de quem vive da reciclagem.
Poder público como legitimador
Outro aprendizado central é sobre a presença do Estado. A experiência mostrou que a participação de secretarias municipais, Centros POP, CRAS e lideranças locais aumenta significativamente a adesão dos catadores. O poder público funciona como legitimador da abordagem, reduzindo o medo de perda de benefícios e ampliando a confiança. A articulação interinstitucional, portanto, não é acessório: é condição de êxito.
Legado que fica
Talvez o maior exemplo de aprendizado esteja na criação da Universo Catador, plataforma de educação a distância com curso aberto e gratuito sobre o mundo do trabalho. O entendimento é que projetos devem produzir ativos duradouros — materiais, plataformas, redes, cartas de intenções — que continuem a beneficiar a categoria após o fim dos repasses. O conhecimento gerado com recursos públicos deve permanecer público.
Categoria diversa e vulnerável
O relatório descreve situações de extrema vulnerabilidade: catadores em situação de rua, sem documentos, com medo de perder o Bolsa Família, com pendências judiciais, trabalhando em lixões ou em condições precárias. A conclusão é que não existe “catador padrão”. Políticas públicas precisam considerar essa diversidade e criar estratégias específicas para cada perfil — individual, cooperado, associado, informal.
Encontro como espaço de unidade
A realização do VII Encontro Estadual, com 147 participantes, mostrou que a categoria tem voz, capacidade de organização e desejo de participação. Espaços de encontro, formação e deliberação fortalecem o movimento e criam pautas comuns.
Conclusão
O Catamais Alagoas não foi apenas um projeto de cadastramento, capacitação ou assessoria. Foi um exercício de construção de confiança, reconhecimento de direitos e fortalecimento de uma categoria invisibilizada. Como resume o próprio relatório: “O programa Catamais é uma iniciativa corajosa do governo do estado de Alagoas que busca incessantemente dar apoio a uma categoria que é invisibilizada como tantas outras no nosso país.”
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